Miguel Torga ou Adolfo Correia da Rocha (1907-1995) Viseu, Coimbra. Médico, poeta e escritor. Um dos mais conspícuos escritores portugueses.
3€, comprado a um particular
Se existe forma de me apegar ao sobrenatural, esta escrita, estas páginas, são exemplo disso. Aqui, existe um outro poder, à muito extinto no nosso meio.
Torga procura o fundo no fundo dos homens; a criação estropiada e a evolução sórdida. De crença própria inspirada na natureza humana, mas de tão pura e simples, surge-nos um mundo em que a justiça, os direitos e deveres, são meros elementos acessórios para aqueles que não sabem sobreviver, mas viver acompanhados do essencial, a própria vida.
No romance é descrita a estória de duas famílias, provenientes de diferentes meios mas cingidas num mesmo fim: os vinhos. Serão quinze dias de trabalho intenso para a roga de Penaguião; as mesmas horas de intriga para os patrões e, no entretanto, toda a raça exposta como que uma fenda a céu aberto, reflectida nos símios, esquecidos do lugar a que pertencem, ou demasiado apegados à bucólica sensação de existência.
Nestas páginas há espaço para tudo por nós conhecido, e para tantas outras coisas de que nunca teremos o apanágio de experienciar; por isso adoro Torga, e por muito que queira descobrir novas palavras, acabo na redescoberta de um mesmo homem, com tanto por escrever, tanto por entender.
Como contista, Torga mostra toda a sua inimaginável imaginação em momentos restrictos, em curtos espaços de tempo. Como romancista nunca nos deixará de surpreender, porque cada página não é mais do que um conto, de uma proeminente cisão entre o real comum e a real realidade tão desconhecida.
A filantropia embranha-se numa justiça do bem pelo bem e do mal pelo mal, reflectindo-se nos que, por modestia e honestidade vingam, e nos que por presunção e egoísmo, são vingados.
".. Os passos importantes de cada indivíduo eram assim. A pessoa a nascer sozinha, a morrer sozinha e a amar sozinha." Miguel Torga
Martim Infante, 16 de Dezembro de 2014
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