Dinis Machado (1930-2008), Lisboa. Escritor e jornalista português
Aqui está um policial peculiar que, para quem gosta dos grandes clássicos de todo o tipo de arte terá, não digo muito, algo para reflectir e desfrutar. A autoria é atribuída ao pseudónimo, do autor, Dennis Mcshade. É todo ele relatado pelo protagonista.
Peter Maynard é um assassino profissional inteligentíssimo, e com uma vasta cultura que nos é exibida ao longo do livro, com várias referências literárias, musicais e, teatrais.A história é passada em Nova York, onde o assassino se assume como um profissional independente. Estatuto que o levará a várias situações de conflito com o Sindicato, organização que gere o crime organizado na cidade.
Maynard, detentor de uma personalidade associal (e de uma úlcera crónica), apenas priva com a sua amante Olga com quem mantém uma relação intermitente e, as recordações da qual, usa como subterfúgio para a realidade solitária, na qual vive perseverantemente. O desprezo com que ele responde a perguntas triviais, nem com um sim, nem com um não, apenas um seco ''pois''; a sua necessidade filosófica em analisar o quotidiano, que discute com a sua consciência, em largos monólogos, foram algumas das idiossincrasias que mais me suscitaram admiração. Mas o que me surpreendeu foi a tamanha exposição constante a todos os ramos da arte, a que ele se submete.
Em termos de intriga, é um livro banal. O assassino recebe um trabalho, de um velho rico, que quer vingar a morte da filha. Esta cometeu suicídio devido aos fantasmas remanescentes de uma violação. Crime esse que foi cometido por quatro homens.O resto já devem calcular, é apenas Maynard no encalço dos violadores. No final descobre que o seu intermediário (Cassino, o homem que coordenava os seus negócios, e ajudava na localização dos alvos), é um dos quatro criminosos.
A verdadeira essência, desta obra, não se encontra no desenrolar da história, mas sim nos grandes pormenores que a compõem. No rol de artistas que são referenciados fazem parte: 'Ray Bradbury, Maria Rilke, Debussy, Pollock, Rodgers e Hammerstein entre tantos outros; Nos longos e curiosos monólogos, onde nos dá a sua opinião sobre variados assuntos.
Um livro com uma escrita pouco elaborada, que se lê de uma assentada. Dinis Machado, com o seu habitual estilo simples, deu mais uma prova do seu génio literário.
" -..- Se os crimes de Maynard não são obras de arte, a arte é que fica a perder.
- Li uma coisa parecida, creio que em Steinbeck - observou T.R.
- Saroyan - corrigi '' Dinis Machado
'' Se não tivesses no estômago, trazias a úlcera num olho, ou num dedo do pé, ou num dos belos compartimentos secretos da intransmissível personalidade. Meu filho, é aí que a tens, passas por ela a pomada dos livros que lês, mas a receita muitas vezes está errada, tu já sabes que não há doenças, há doentes, que és um doente incurável de uma coisa qualquer que és tu mesmo, que talvez te fizesse fugir a sete pés, se soubesses o que era'' excerto de um dos monólogos de Maynard , Dinis Machado
Vilhena Lopes, 12 de Dezembro de 2014
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