domingo, 28 de dezembro de 2014

A Oeste nada de novo


Erich Maria Remarque ou Erich Paul Remark (1898-1970) Alemanha, Suiça. Escritor.


2€, comprado a um particular
Amo a guerra como quem ama a vida. Amo-a reconhecendo-a à partida como uma necessidade básica para a manutenção, não só da humanidade, mas do infinito enjaulado chamado Terra.
Em questões de base societária, sinto a frieza de espírito, condição necessária para um dia-a-dia saudável passado entre a cidade. A guerra é a nossa rendição aos factos selvagens intrinsecamente enraizados em nós; a guerra é o que somos, porque não criamos, destruímos o criador para o recriar. Somos vis.
Remarque retrata, não uma estória vivida, mas baseada no que ele interpreta da realidade: o que foi, na primeira pessoa, a primeira guerra mundial. É realmente fascinante como duas mortes (em Saravejo) tiveram o poder de criar o caos e provocar outros tantos milhares de apagões mentais.
Ao longo do livro vamos interiorizando os constrangimentos, momentos, sentimentos, de Paul Baümer, que com os seus dezanove anos mal sabe puxar o gatilho. E a guerra é para muitos isso mesmo, o reflexo do egoísmo humano, a fuga para salvar a própria pele.
Ao ler estas páginas é realçada a exiguidade do objecto que somos, que é algo escandaloso, mas não surpreendente. Como pode um mundo com este tamanho proteger todos e cada um? Será sempre uma posição fetal, porque não estive lá, porque somos hoje, os jovens, demasiado verdes para fazer qualquer coisa que exija esforço.
Não há crime maior do que atribuirmos à nossa vida superior importância, do que a vida de uma raça no seu todo. Se me perguntarem se ficaria então feliz com o surgimento de uma nova guerra que envolva grande parte do mundo, evidentemente que responderia de forma negativa, mas se isso seria profícuo para a o planeta? Indubitável. Só o presente nos importa. Mas todo o presente? Não. O presente alheio é-nos indiferente. Eu esqueço-me dele antes de o pensar. Onde haverá espaço para o futuro?

Como livro é realmente bom. É uma leitura indispensável, até porque marca uma época histórica. Em relação à ideia, é perceptível a minha discórdia mas aceito uma outra opinião, apesar de a reconhecer como medíocre, por revelar o medo maior.
Até se reencontrar uma nova forma de fanatismo, patriótico ou não, que nos permita morrer reconhecendo que cumprimos o que nos foi proposto ou imposto, será a guerra a desempenhar esse papel.
Odeio-te. 


Martim Infante, 28 de Dezembro de 2014

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O Rouxinol e a Rosa



Oscar Wilde (1854 - 1900) Dublin. Escritor e poeta irlandês 

Explorando então uma parte menos conhecida da obra de Wilde, os contos, deparei me com esta fábula, escrita para os seus filhos. Por esta razão teremos acesso a uma faceta mais circunspecta do escritor, não obstante os temas ser-nos-ão familiares: o amor, o desejo e, a arte.

Um estudante chora a sua frustração por não ter uma rosa vermelha, para dar à rapariga que deseja.
O rouxinol - que representa o artista em estado bruto, ou seja, vive quase somente para a arte- vê no sentimento do jovem personificada a sua música, e consequentemente decide partir ao encontro da tal rosa. Ao fim de visitar várias roseiras em vão, descobre então uma que lhe oferece um pacto, o seu sacrifício pela flor. Depois de reflectir decide que a vida de um pássaro, em nada se aproxima da importância do amor humano.
 Então no dia seguinte o rapaz colhe a rosa e corre a entregá-la à rapariga - esta parte, confesso que me deu alguma piada - a jovem rejeita a flor pois já tinha sido presenteada com jóias pelo filho do Camarista (vereador da câmara), e que a importância da rosa em nada se aproximava à das jóias. O estudante, automaticamente, deita fora a rosa que é esmagada pela roda de um carro.

Acho que o sentimento que imediatamente sentimos é de injustiça, certo? Pobre rouxinol, sacrificou a sua vida por um capricho humano, que em nada enobreceu a sua morte.

Penso que Wilde tinha a intenção de, por meio deste sentimento, mostrar aos seus filhos como o desejo humano pode ser fugaz; e acima de tudo ter atenção à importância que atribuímos às paixões ou tentações, pois podem revelar-se tremendas desilusões.

'' - Cá está, finalmente um verdadeiro apaixonado! - exclamou o Rouxinol.- Noite após noite o tenho cantado apesar de o não conhecer; noite após noite contei a sua história às estrelas e vejo-o agora.'' Oscar Wilde

'' Amarga, era amarga a dor e cada vez era mais ardente o seu canto, porque cantava o amor sublimado pela Morte, o amor que não morre no túmulo. '' Oscar Wilde

''Cada um dá o que tem no coração, e cada um recebe com o coração que tem'' não pertence ao conto, nem sei se esta frase pertence a Oscar Wilde, apesar de ver ser lhe atribuída a autoria em alguns blogs

 Vilhena Lopes , 22 de Dezembro de 2014







quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Vindima


Miguel Torga ou Adolfo Correia da Rocha (1907-1995) Viseu, Coimbra. Médico, poeta e escritor. Um dos mais conspícuos escritores portugueses.


3€, comprado a um particular

Se existe forma de me apegar ao sobrenatural, esta escrita, estas páginas, são exemplo disso. Aqui, existe um outro poder, à muito extinto no nosso meio.
Torga procura o fundo no fundo dos homens; a criação estropiada e a evolução sórdida. De crença própria inspirada na natureza humana, mas de tão pura e simples, surge-nos um mundo em que a justiça, os direitos e deveres, são meros elementos acessórios para aqueles que não sabem sobreviver, mas viver acompanhados do essencial, a própria vida.
No romance é descrita a estória de duas famílias, provenientes de diferentes meios mas cingidas num mesmo fim: os vinhos. Serão quinze dias de trabalho intenso para a roga de Penaguião; as mesmas horas de intriga para os patrões e, no entretanto, toda a raça exposta como que uma fenda a céu aberto, reflectida nos símios, esquecidos do lugar a que pertencem, ou demasiado apegados à bucólica sensação de existência.
Nestas páginas há espaço para tudo por nós conhecido, e para tantas outras coisas de que nunca teremos o apanágio de experienciar; por isso adoro Torga, e por muito que queira descobrir novas palavras, acabo na redescoberta de um mesmo homem, com tanto por escrever, tanto por entender.
Como contista, Torga mostra toda a sua inimaginável imaginação em momentos restrictos, em curtos espaços de tempo. Como romancista nunca nos deixará de surpreender, porque cada página não é mais do que um conto, de uma proeminente cisão entre o real comum e a real realidade tão desconhecida.
A filantropia embranha-se numa justiça do bem pelo bem e do mal pelo mal, reflectindo-se nos que, por modestia e honestidade vingam, e nos que por presunção e egoísmo, são vingados.


".. Os passos importantes de cada indivíduo eram assim. A pessoa a nascer sozinha, a morrer sozinha e a amar sozinha."  Miguel Torga 


Martim Infante, 16 de Dezembro de 2014

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Mão Direita do Diabo



   Dinis Machado (1930-2008), Lisboa. Escritor e jornalista português 

  Aqui está um policial peculiar que, para quem gosta dos grandes clássicos de todo o tipo de arte terá, não digo muito, algo para reflectir e desfrutar. A autoria é atribuída ao pseudónimo, do autor, Dennis Mcshade. É todo ele relatado pelo protagonista.

 Peter Maynard é um assassino profissional inteligentíssimo, e com uma vasta cultura que nos é exibida ao longo do livro, com várias referências literárias, musicais e, teatrais.
  A história é passada em Nova York, onde o assassino se assume como um profissional independente. Estatuto que o levará a várias situações de conflito com o Sindicato, organização que gere o crime organizado na cidade.

  Maynard, detentor de uma personalidade associal (e de uma úlcera crónica), apenas priva com a sua amante Olga com quem mantém uma relação intermitente e, as recordações da qual, usa como subterfúgio para a realidade solitária, na qual vive perseverantemente. O desprezo com que ele responde a perguntas triviais, nem com um sim, nem com um não, apenas um seco ''pois''; a sua necessidade filosófica em analisar o quotidiano, que discute com a sua consciência, em largos monólogos, foram algumas das idiossincrasias que mais me suscitaram admiração. Mas o que me surpreendeu foi a tamanha exposição constante a todos os ramos da arte, a que ele se submete.

  Em termos de intriga, é um livro banal. O assassino recebe um trabalho, de um velho rico, que quer vingar a morte da filha. Esta cometeu suicídio devido aos fantasmas remanescentes de uma violação. Crime esse que foi cometido por quatro homens.O resto já devem calcular, é apenas Maynard no encalço dos violadores. No final descobre que o seu intermediário (Cassino, o homem que coordenava os seus negócios, e ajudava na localização dos alvos), é um dos quatro criminosos.

  A verdadeira essência, desta obra, não se encontra no desenrolar da história, mas sim nos grandes pormenores que a compõem. No rol de artistas que são referenciados fazem parte: 'Ray Bradbury, Maria Rilke, Debussy, Pollock, Rodgers e Hammerstein  entre tantos outros; Nos longos e curiosos monólogos, onde nos dá a sua opinião sobre variados assuntos.
 Um livro com uma escrita pouco elaborada, que se lê de uma assentada. Dinis Machado, com o seu habitual estilo simples, deu mais uma prova do seu génio literário.


" -..- Se os crimes de Maynard não são obras de arte, a arte é que fica a perder.
      - Li uma coisa parecida, creio que em Steinbeck - observou T.R.
      - Saroyan - corrigi  '' Dinis Machado

'' Se não tivesses no estômago, trazias a úlcera num olho, ou num dedo do pé, ou num dos belos compartimentos secretos da intransmissível personalidade. Meu filho, é aí que a tens, passas por ela a pomada dos livros que lês, mas a receita muitas vezes está errada, tu já sabes que não há doenças, há doentes, que és um doente incurável de uma coisa qualquer que és tu mesmo, que talvez te fizesse fugir a sete pés, se soubesses o que era'' excerto de um dos monólogos de Maynard , Dinis Machado



                                                                                                        Vilhena Lopes, 12 de Dezembro de 2014

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O espião



Máximo Gorki ou Aleksei Peshkov (1868- 1936) Moscovo. Escritor, romancista, dramaturgo, contista e carismático político.



1€, Feira da ladra de Lisboa 


Há livros de que gostamos. Muitos, desprezamos. Poucos que adoramos. Variadíssimos, olvidamos. Este porém na quarta categoria, onde encontrar-se-à certamente num devir próximo.
 Gorki não me conseguiu prender ao seu livro, que de maneira nenhuma me encantou. Soou-me demasiado corriqueira esta estória de um moço humilde pertencente à populaça, que ainda adolescente foi entregue a um qualquer mundano,dono de uma loja de livros, pelo seu tio. A partir daí, e já na cidade, onde Evsei Klimkov vai crescendo na sua característica solidão,um tanto ou quanto misantropa, vive a vida indefinidamente, ao jeito dos seus colegas espiões, seres egoístas e sem moral. 
Considero-me algo avesso à moral, e apesar de me satisfazer a visão sociológica de Evsei, a estória em si, carece de criatividade e da animosidade necessárias para nos prender até ao fim das páginas,e nos entristecer após a sua morte.
A atitude não pensante dos representantes do Imperador,contrastando com a inteligência dos livres-pensadores, torna-se quase irónica, culminando em expressos combates não só cerebrais como físicos. Evsei na sua ininteligência, debater-se-à cada vez mais, sobre as valências da sua profissão e do contributo, se existe, para os seus coabitantes.
Gorki, representante dos poderes do proletariado fica muitíssimo atrás do que a literatura Russa havia produzido alguns anos antes, o que apesar de expectável, não deixa de entristecer.
Ainda assim o medo, a ganância, a ânsia, o poder, os interesses e muitos outros alicerces da obra interior humana estão expressos nesta obra: considero apenas que de forma errónea.



Martim Infante, 1 de Dezembro de 2014