Erich Maria Remarque ou Erich Paul Remark (1898-1970) Alemanha, Suiça. Escritor.
2€, comprado a um particular
Amo a guerra como quem ama a vida. Amo-a reconhecendo-a à partida como uma necessidade básica para a manutenção, não só da humanidade, mas do infinito enjaulado chamado Terra.
Em questões de base societária, sinto a frieza de espírito, condição necessária para um dia-a-dia saudável passado entre a cidade. A guerra é a nossa rendição aos factos selvagens intrinsecamente enraizados em nós; a guerra é o que somos, porque não criamos, destruímos o criador para o recriar. Somos vis.
Remarque retrata, não uma estória vivida, mas baseada no que ele interpreta da realidade: o que foi, na primeira pessoa, a primeira guerra mundial. É realmente fascinante como duas mortes (em Saravejo) tiveram o poder de criar o caos e provocar outros tantos milhares de apagões mentais.
Ao longo do livro vamos interiorizando os constrangimentos, momentos, sentimentos, de Paul Baümer, que com os seus dezanove anos mal sabe puxar o gatilho. E a guerra é para muitos isso mesmo, o reflexo do egoísmo humano, a fuga para salvar a própria pele.
Ao ler estas páginas é realçada a exiguidade do objecto que somos, que é algo escandaloso, mas não surpreendente. Como pode um mundo com este tamanho proteger todos e cada um? Será sempre uma posição fetal, porque não estive lá, porque somos hoje, os jovens, demasiado verdes para fazer qualquer coisa que exija esforço.
Não há crime maior do que atribuirmos à nossa vida superior importância, do que a vida de uma raça no seu todo. Se me perguntarem se ficaria então feliz com o surgimento de uma nova guerra que envolva grande parte do mundo, evidentemente que responderia de forma negativa, mas se isso seria profícuo para a o planeta? Indubitável. Só o presente nos importa. Mas todo o presente? Não. O presente alheio é-nos indiferente. Eu esqueço-me dele antes de o pensar. Onde haverá espaço para o futuro?
Como livro é realmente bom. É uma leitura indispensável, até porque marca uma época histórica. Em relação à ideia, é perceptível a minha discórdia mas aceito uma outra opinião, apesar de a reconhecer como medíocre, por revelar o medo maior.
Até se reencontrar uma nova forma de fanatismo, patriótico ou não, que nos permita morrer reconhecendo que cumprimos o que nos foi proposto ou imposto, será a guerra a desempenhar esse papel.
Odeio-te.
Martim Infante, 28 de Dezembro de 2014

