J. M. Coetzee (1940- ) África do Sul. Professor de literatura e escritor.
2€, Fyodor Books
Não é de todo uma estória fácil. Já havia lido Coetzee, e a sua escrita frontal, bruta, pungente, é qualquer coisa de mirabolante. No entanto, talvez pela qualidade de desgraça imanente à expectativa, este livro em particular, não me impressionou. Longe disso.
O retratar da solidão toma aqui, um enredo de estrondo: o eu, como figura central de todos os outros; o eu, como condição vital; o eu, e tudo aquilo que ele pode criar. Não tenho capacidade de imaginar a solidão. Há determinadas situações que por serem, sobremaneira complicadas de perceber, se tornam tabus. O espaço que é por nós habitado, é como que repulsor de certos sentidos. Os culpados? Somos nós, obviamente.
Não se enlaça na minha mente a possibilidade de acreditar, que a vida em África e a relação entre pretos e brancos, possa ser retratada desta forma. O fosso existente é, muitas das vezes, um mito, posto em evidência para que teorias demagógicas e de falsa filantropia possam surgir como verdadeiras iluminações cerebrais. No entanto o Apartheid existiu, e apesar da minha veia racista ser proeminente, e considerar a separação de culturas como factor essencial de manutenção da raça, reconheço a ignomínia histórica que esta forma de Governo representou.
Um único espaço: a fazenda. Enunciaria, uma única cabeça: a da "menina", presa na sua amargura e tudo o que envolve a sua própria decadência.
Coetzee é um autor representativo dos movimentos anti preto no branco sul africanos e, indubitavelmente, é exposto nos seus escritos muito do que é para ele toda a relação entre diferentes seres, sendo em tudo semelhantes. Mas será aquele o coração daquela terra?
Aconselho, para uma experiência bem mais profícua, a leitura de "A idade do ferro", essa sim, uma obra espantosa.
"Há coisas que são irrecuperáveis. Talvez isso prove a realidade das coisas."
"Sempre procurei o sopro da vida na atmosfera rarefeita deste nosso tempo."
Coetzee
Martim Infante, 16 de Janeiro de 2015