segunda-feira, 6 de julho de 2015

O processo

Franz Kafka (1883-1924) Aústria. Agente de seguros e escritor.

2€, Alfarrabista
Certas vezes trocamos de posição na cadeira por uma qualquer dor lombar. A leitura aliás, proporciona inúmeras situações destas. Mas por outras tantas vezes, não tanto quanto esperamos, o que lemos é de tal forma incómodo, que o movimento ganha outras proporções, imiscuindo-se num dealbar cerebral, de observação impossível. 
Kafka, na sua escrita escorreita, transporta-nos para os seus espaços murados e irrespiráveis. Em volta de um processo, sem entrada ou saída em vista, a possibilidade de fuga tornasse proibida. As páginas lidas, vão-se sobrepondo a um ritmo sempre crescente. K., que por tão anónimo, pode ser tido como qualquer um de nós, alimenta uma luta entre a total indiferença e o total imbricamento. 
Neste texto são reveladas características muito vincadas do autor. Não fossem os escritos, por maior imaginação que lhes seja atribuída, o mais puro do nosso âmago em total exposição. A mulher é toda ela exposta como prostituta. De um vislumbre, a acção encaminhasse directamente para um interacção carnal. A causadora é sempre a parte feminina, em estreita ligação libidinosa , com tudo o que o humano pode, e tem para oferecer. Tudo isto contribuí para a claustrofobia com que o leitor tem de lidar, e delirar com ela. O super-realismo é de tal forma pungente, que constantemente são impostas questões diais à partida excluídas. 

A dúvida, e essa não mais poderá ser satisfeita, é realçada pelo inolvidável facto de toda a obra de Kafka ter sido publicada postumamente. São expostos em anexo, trechos iniciados mas não findados, e partes que haviam sido riscadas pelo autor, mas que se encontravam associadas a determinados capítulos. A própria incapacidade que temos de conhecer a real obra do autor, até essa, é interminável e prolonga o labirinto propiciado pelas palavras, até ao irresolúvel caminho da incompreensão. 
O interesse da obra, mais do que todo o alicerce moral e intrínseco da personagem a despeito do caso, eleva-se para reconstruir todo o esqueleto de uma justiça, erguida pela injustiça. O caso, qualquer caso, pode ser exposto neste mesmo modelo.
Tudo se resume há máquina judicial e há súcia que a compõe. Nada mais importa senão eles. Mas eles também somos nós. Afinal, quem é a justiça? A "jaula de ferro" weberiana faz agora muito mais sentido.


           " Os escritos são imutáveis e as interpretações são muitas vezes apenas a expressão do desespero que os comentadores sentem perante eles."

           " A compreensão de uma coisa e a má interpretação da mesma coisa não se excluem completamente. " Franz Kafka
                                              


Martim Infante

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Eugénia Grandet

Honoré de Balzac (1799-1850) Tours - Paris. Ecritor romancista

3€ Alfarrabista  

 
Balzac apresenta-nos a família Grandet, assombrada pelas típicas obsessões humanas: amor e dinheiro.  Patriarca da família, o senhor Grandet, rico vinhateiro, sofre de uma avareza dantesca; a sua família vive numa pobreza lastimável e sob um regime orwelliano para que não se gaste um tusto. Eugénia, a filha única,  devido à vasta fortuna do progenitor, vê a sua mão disputada pelas famílias mais ricas da cidade provinciana de Saumur.

O escritor realista, pode ser enfadonho nas descrições do envolvente, mas compensa com proficiência, nas do psicológico. Criando várias lufadas de ar fresco ao longo da história, como o aparecimento do primo Grandet, jovem aristocrata parisiense desdenhoso de toda aquela população e modo de vida do interior. O primo será a grande paixão de Eugénia. Esta com uma visão quixotesca de quem descobre o primeiro amor, terá uma enorme desilusão.

O final perfeito tem tanto de trágico como de irónico, o senhor Grandet morre no escritório contemplar toda a sua fortuna. E Eugénia acaba por se casar por conveniência, com um modo de vida que deixaria o déspota, seu pai, orgulhoso. 

 Típico romance da época, que explora o pecado, a religião e o amor aos olhos de Balzac no pós-revolução francesa, que nos demonstra o porquê do seu nome ser incontornável. Sempre perspicaz e com observações gracejadoras. Ficamos então a conhecer os vícios de uma época algo distante mas, obviamente, muito pouco diferente dos dias de hoje. 


'' A lisonja nunca emana das grandes almas, é o apanágio dos pequenos espíritos, que se diminuem ainda mais para penetrarem melhor na esfera vital da pessoa à roda quem gravitam'' Balzac 

   Vilhena Lopes


quarta-feira, 13 de maio de 2015

Ivanhoe

Sir Walter Scott (1771-1832) Escócia. Dramaturgo, poeta e impulsionador do chamado "romance histórico".


Prenda
As peças, enquadradas, assumem importância arqui-excepcional. A dimensão emocional torna-se ainda mais crível, e a imanente possibilidade de se associar formas de ser e estar, a seres enciclopédicos, é fascinante.
Walter Scott é conciso e preciso na identificação histórica. O que poderia ser considerada uma obra juvenil, toma particular importância na pseudo-moderna sociedade. O consciente desdém pelo passado, alimenta-se erroneamente pela preocupação futura. Surgiu, nas primeiras páginas, a necessidade e o ensejo de me auxiliar de outros meios explicativos: evoluí. Evoluí no saber, ser independente da reflexão e do sentido, mas estimulo de vida mais consciente. 
Ponho em realce o título: Ivanhoe. Compreendo a escolha, direccionada na essência pela enlaço da personagem em toda e tudo da estória. Mas as suas intermitentes aparições, dão a sensação da personagem novelesca: detentora de um mérito sempre alheio e alheado. 
No meio de saxões e normandos, nazarenos e judeus, a história fluí com tamanho realismo, que as páginas viram tela. A intriga monárquica eleva-se, e é pelo mistério resolvida. O orgulho, a honra e a brutalidade da vida, milénio atrás, só se equipara com as antagónicas, mas não menos perniciosas, qualidades actuais. É talvez este, o ponto cíclico da nossa própria existência, que alcança especial relevo no meu cérebro. Se antes era pela honra que nos regíamos, é hoje na desonra que os nossos dias se sobrepõem. 
A leviandade do género humano, sempre presa em questões tão impudicas, esquece sempre o que é ser grande. O autor deste trecho só o pode ser; os restantes, são seus súbditos.



"Tanto como a neve de Dezembro espera pelo sol de verão."  Sir Walter Scott



Martim Infante



sábado, 21 de fevereiro de 2015

O amor nos tempos da cólera

Gabriel García Márquez (1927-2014) Colômbia, México. Escritor, jornalista, editor e activista.


1€, Feira da ladra de Lisboa            

O amor. Esse tão misterioso e insondável sentido. Sim, sentido. Tal como os seus semelhantes, nos enleva e reconhece toda a beleza que a realidade esconde, apenas e só, por ser real.  Esse amor, próprio ou partilhado, possuidor da única magia que o ser humano poderá intitular como sua. Todo o amor é diferente. 
É da grandeza e surpresa deste amor, que estas páginas celebram. A inimaginalidade deste amor é sobre-humana. Não tem a capacidade de metamorfosear a realidade protagonizada, porque o ser humano não reconhece o passado, senão na sua memória utópica e sonhadora. Tem o leitor o ensejo de entender, em toda a sua imensidão, o que nos pode revelar, esse amor.
Esse louco, Florentino Ariza, acreditou toda a sua vida no que sentiu. Não por o ter sentido, mas sim por vivê-lo diariamente. Amou e não conseguiu mostrar-se para ser amado, não se importando no entanto de dar a sua vida por ela, Fermina Daza. Ainda que nada contribuindo para a sua felicidade. Esta paixão não se consagra num intento físico, sempre perecível. Permanece vincada nas entranhas de Florentino, talvez porque tudo seja fortemente mais e melhor vivido, antes de o ser. Não deixando o ser, de ser, por ser vivido. 
Hoje os que por ai dizem amar, não mais esperam do que um momento pelo seu concubino. Florentino esperou cinquenta, não dias, mas anos, sem a certeza da certeza: causadora da destruição matrimonial. Esperar a morte alheia para amar. Usar e abusar para amar. Sofrer, para amar.
Os devaneios terrestres de Garcia Márquez são formidáveis. Não me esqueço de um livro seu, finalizado por uma tão apropriada palavra: merda. Porque por vezes pouco ou nada há a acrescentar. E porque essa escrita pomposa e floreada, é tantas vezes senão apenas isso. 
Vivi nestas páginas o sentido do amor e todos os seus esforços. Contrariando a minha incapacidade de separação entre amor carnal e final. A beleza do amor, único e original, num texto que não oferece espaço para ser acreditado, mas sonhado. O amor como nunca antes percebido.

"Não se amam os filhos por serem filhos mas sim pela grande amizade que surge quando os criamos"

"... é a vida, mais do que a morte, que não tem limites"

                                                                    Gabriel García Márquez


Martim Infante, 21 de Fevereiro de 2015

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

No Coração desta terra


J. M. Coetzee (1940- ) África do Sul. Professor de literatura e escritor.

2€, Fyodor Books
Não é de todo uma estória fácil. Já havia lido Coetzee, e a sua escrita frontal, bruta, pungente, é qualquer coisa de mirabolante. No entanto, talvez pela qualidade de desgraça imanente à expectativa, este livro em particular, não me impressionou. Longe disso.
O retratar da solidão toma aqui, um enredo de estrondo: o eu, como figura central de todos os outros; o eu, como condição vital; o eu, e tudo aquilo que ele pode criar. Não tenho capacidade de imaginar a solidão. Há determinadas situações que por serem, sobremaneira complicadas de perceber, se tornam tabus. O espaço que é por nós habitado, é como que repulsor de certos sentidos. Os culpados? Somos nós, obviamente. 
Não se enlaça na minha mente a possibilidade de acreditar, que a vida em África e a relação entre pretos e brancos, possa ser retratada desta forma. O fosso existente é, muitas das vezes, um mito, posto em evidência para que teorias demagógicas e de falsa filantropia possam surgir como verdadeiras iluminações cerebrais. No entanto o Apartheid existiu, e apesar da minha veia racista ser proeminente, e considerar a separação de culturas como factor essencial de manutenção da raça, reconheço a ignomínia histórica que esta forma de Governo representou.
Um único espaço: a fazenda. Enunciaria, uma única cabeça: a da "menina", presa na sua amargura e tudo o que envolve a sua própria decadência.
 Coetzee é um autor representativo dos movimentos anti preto no branco sul africanos e, indubitavelmente, é exposto nos seus escritos muito do que é para ele toda a relação entre diferentes seres, sendo em tudo semelhantes. Mas será aquele o coração daquela terra?
Aconselho, para uma experiência bem mais profícua, a leitura de "A idade do ferro", essa sim, uma obra espantosa.

"Há coisas que são irrecuperáveis. Talvez isso prove a realidade das coisas."

"Sempre procurei o sopro da vida na atmosfera rarefeita deste nosso tempo."
                Coetzee




Martim Infante, 16 de Janeiro de 2015