Martin Amis (1949-...) Inglaterra. Escritor.
Do meu pai
Ser grande, no último qualquer do século vinte, no mundo obstruído pela inusitada piaçaba igualitária, a internet, é ser podre. Podre, porque julgar que nada mais há para descobrir senão no meio do escrutínio das descobertas, nos enleva num caminho fechado da individualidade: da nossa própria dissecação, da nossa triste constatação, do nosso fundo animal.
Somos fome, sexo e dia-a-dia. Não somos, por mais que teimemos, mentores da igualdade universal, activistas para a preservação do ambiente ou coisas globalizadas, num mundo interiormente globalizado. Somos hipocrisia, egoísmo: um aglomerado exíguo de merda sem finis ultimus, aparentemente satisfeitos num objectivo esquecido: dinheiro, dinheiro, dinheiro. E John Self somos nós, sem disfarces: nus.
John Self, condutor da estória na primeira pessoa, dispensa qualquer caracterização: é tanto, é tao pungente que não cabe em limites cabais de palavras cabais. Muito mais do que um caminho ilusório pela derrota do dinheiro (mas que dinheiro?), este livro é um manual de entendimento do século que se adivinhava, do século em que hoje estamos: do sexo vinte e um.
Esta obra não é boa ou má, sapiente ou insalubre: é única, e é obrigatório lê-la. Martin Amis é definitivamente uma figura central da literatura actual, um autor com garantia de imortalidade.
Chegados aqui, podia perguntar-me porque mundos seguirá a escrita depois disto, não sem medo, perguntar-me se existem mundos ainda por revelar: ofereço antes uma resposta, repito-a com a certeza, o aval da história: existe sempre, sempre mesmo, cousa que ainda não o seja.
"Quando se é assim jovem, o que se passa é o seguinte: temos um ar confiante, mas não percebemos nada de nada". Martin Amis
Martim Infante




