sexta-feira, 11 de março de 2016

Money


 Martin Amis (1949-...) Inglaterra. Escritor.    


Do meu pai
Ser grande, no último qualquer do século vinte, no mundo obstruído pela inusitada piaçaba igualitária, a internet, é ser podre. Podre, porque julgar que nada mais há para descobrir senão no meio do escrutínio das descobertas, nos enleva num caminho fechado da individualidade: da nossa própria dissecação, da nossa triste constatação, do nosso fundo animal. 
Somos fome, sexo e dia-a-dia. Não somos, por mais que teimemos, mentores da igualdade universal, activistas para a preservação do ambiente ou coisas globalizadas, num mundo interiormente globalizado. Somos hipocrisia, egoísmo: um aglomerado  exíguo de merda sem finis ultimus, aparentemente satisfeitos num objectivo esquecido: dinheiro, dinheiro, dinheiro. E John Self somos nós, sem disfarces: nus. 
John Self, condutor da estória na primeira pessoa, dispensa qualquer caracterização: é tanto, é tao pungente que não cabe em limites cabais de palavras cabais. Muito mais do que um caminho ilusório pela derrota do dinheiro (mas que dinheiro?), este livro é um manual de entendimento do século que se adivinhava, do século em que hoje estamos: do sexo vinte e um.
Esta obra não é boa ou má, sapiente ou insalubre: é única, e é obrigatório lê-la. Martin Amis é definitivamente uma figura central da literatura actual, um autor com garantia de imortalidade.
Chegados aqui, podia perguntar-me porque mundos seguirá a escrita depois disto, não sem medo, perguntar-me se existem mundos ainda por revelar: ofereço antes uma resposta, repito-a com a certeza, o aval da história: existe sempre, sempre mesmo, cousa que ainda não o seja.

                      "Quando se é assim jovem, o que se passa é o seguinte: temos um ar confiante, mas não percebemos nada de nada".  Martin Amis
                                                                               

Martim Infante

domingo, 6 de março de 2016

Na Penúria em Paris e em Londres

George Orwell (pseudónimo de Eric Blair) 1903-1950; Índia - Inglaterra; Escritor 

Na penúria. É a partir deste patamar que Orwell nos relata as histórias da suas estadias nas duas capitais. Sem cheta, de estômago vazio e apenas com tabaco e vinho como paliativos: são estas as bases que sustentam o seu quotidiano.

Paris - a melhor metade-. O escritor anda à deriva por entre bistros e hotéis, escutando histórias de graça e desgraça, a viver e a trabalhar, a tentar comer e a passar fome. O que realmente nos prende à obra é o realismo que nos chega. Ficamos sem perceber onde está o limite entre a ficção e documentário.

Ou seja, o livros consiste nuns bons meses que o escritor nos oferece na capital parisiense, ensinando como é viver como plongeur - a profissão mais desprezível e mal paga num hotel- e como fazer gestões de banca mirabolantes sem dinheiro.
Em Londres, a cena torna se mais sórdida, mais cruel. O próprio escritor torna-se muito mais crítico, talvez por ser o seu país.

Este é um livro de intervenção. Eric Blair que provém de famílias da classe média alta não se submeteu inteiramente a este modo de vida, como descreve na obra. O objectivo não é o documentário mas sim a intervenção. Um abre olhos à sociedade. Concluindo com uma série de observações ''de ordem muito geral sobre os vagabundos''  onde defense o abolimento do preconceito para que possamos compreender verdadeiramente a situação.


                                                                                                                                Vilhena Lopes





quinta-feira, 3 de março de 2016

Kira Georgievna

Viktor Nekrassov (1911-1987) Actual Ucrânia, França. Escritor e jornalista.

Prenda
Há livros que nada nos dizem. Verdade que o dito é mais geralmente proferido pela boca e não pelo papel. Verdade também, esta porventura mais discutível, que o primeiro tem muito menos força. Enfim.
Kira Giorgievna é uma mulher de três amores, se há espaço para tal existência (ponho de parte o meu cepticismo), e todo o texto se enlaça de volta deles. O primeiro amor, o juvenil, para alguns o mais inocente e para mim o mais sincero, imiscuí-se na vida de Kira depois de uma vida. Casada entrementes com um homem mais velho, uma possível junção bajular, a mulher encontra-se naquele estado de sensabor a que todo o jovem teme chegar. O terceiro amor, a paixão por um rapaz na flor da idade e na podridão do espírito, é utilizado como modelo para a feitura de uma escultura: Kira é uma escultora.
Quando o terceiro amor está a desabrochar, surge o primeiro, regressado da penumbra, o que arrasta o segundo para a solidão, o esquecimento. 
Mas tudo se desenrola em nada. O amor tem de ser muito mais do que umas linhas, uns meios-termos quase profundos, Acredito na profundidade da frase, qualquer frase: a profundidade é nossa e não da palavra escrita.
Espero sempre do autor russo (ignoro fonteiras promíscuas), qualquer coisa de fascinante. Mas este texto é pífio, fraco, não puxou por mim. Quis lê-lo apenas para dele poder fugir. Foi só mais um, no meio de outros tantos. Ainda assim, todo o livro merece ser lido. Cada livro é muito mais que um livro, talvez porque não o seja, senão quando é lido.


Martim Infante

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Voo Nocturno


Antoine de Saint-Exupery (1900-1944) França . Escritor ; Piloto 


5€ Alfarrabista

A ausência de medo é premissa para grande parte dos heróis. Se esta ausência é racional ou irracional não interessa. Podemos estar perante um corajoso ou um louco, mas que diferença existe na prática?


Estamos no pré-II Guerra Mundial, em Buenos Aires, onde se encontra o quartel duma companhia de correio. A realização de voos nocturnos, apesar de arriscada, é necessária devido ao tempo que não podem perder para outros meios de transporte. Nesta altura os aviões viajam a altitudes muito inferiores , o que os sujeitava completamente às condições do meio.


Os pilotos são então retratados como heróis. Seres superiores. Que não cedem a essa coisa tão humana que é o medo. E como motor desta causa temos Rivière que coordena a rede de aviões a partir do campo de aviação de Buenos Aires, através de telegramas trocados com as varias estações de comunicação por radio . É ele a personagem principal, o impulsionador filosófico pela maneira como encara a profissão; pelas suas declarações; um estóico. Esta atitude é enobrecida ao longo de toda a obra, atingindo o seu apogeu num capítulo que lembra a trágica história de Ícaro: um piloto rodeado, há muito, por uma tempestade decide voar para cima direito à luz para escapar daquele sufoco, mesmo sabendo que isso muito provavelmente significaria ficar sem combustível ou rota. Mas chegando ao cimo ele sorri e apraz-se com a visão proferindo: ''É demasiado belo''.


Exupéry apresenta-nos os dois mundos pelos quais devotou a sua vida: a escrita e a aviação. Tendo mesmo morrido num acidente de aviação sobre o mar Mediterrâneo na II Guerra Mundial. Vejo-o como um exemplo de vida, um diamante em bruto, que apenas seguia a suas convicções. Acima de tudo: a sua arte.  


''Começou aquela profunda meditação de voo em que se saboreia uma esperança inexplicável'' 

'' ''Há que empurrá-los'' pensava ''para uma vida forte que traga sofrimentos e alegrias, mas que é a única que conta'' ''. 

''Mas existe uma fatalidade interior: há um momento em que nos sentimos vulneráveis; então os erros atraem-nos como uma vertigem''.                                                                                                        Exupéry

Vilhena Lopes

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O processo

Franz Kafka (1883-1924) Aústria. Agente de seguros e escritor.

2€, Alfarrabista
Certas vezes trocamos de posição na cadeira por uma qualquer dor lombar. A leitura aliás, proporciona inúmeras situações destas. Mas por outras tantas vezes, não tanto quanto esperamos, o que lemos é de tal forma incómodo, que o movimento ganha outras proporções, imiscuindo-se num dealbar cerebral, de observação impossível. 
Kafka, na sua escrita escorreita, transporta-nos para os seus espaços murados e irrespiráveis. Em volta de um processo, sem entrada ou saída em vista, a possibilidade de fuga tornasse proibida. As páginas lidas, vão-se sobrepondo a um ritmo sempre crescente. K., que por tão anónimo, pode ser tido como qualquer um de nós, alimenta uma luta entre a total indiferença e o total imbricamento. 
Neste texto são reveladas características muito vincadas do autor. Não fossem os escritos, por maior imaginação que lhes seja atribuída, o mais puro do nosso âmago em total exposição. A mulher é toda ela exposta como prostituta. De um vislumbre, a acção encaminhasse directamente para um interacção carnal. A causadora é sempre a parte feminina, em estreita ligação libidinosa , com tudo o que o humano pode, e tem para oferecer. Tudo isto contribuí para a claustrofobia com que o leitor tem de lidar, e delirar com ela. O super-realismo é de tal forma pungente, que constantemente são impostas questões diais à partida excluídas. 

A dúvida, e essa não mais poderá ser satisfeita, é realçada pelo inolvidável facto de toda a obra de Kafka ter sido publicada postumamente. São expostos em anexo, trechos iniciados mas não findados, e partes que haviam sido riscadas pelo autor, mas que se encontravam associadas a determinados capítulos. A própria incapacidade que temos de conhecer a real obra do autor, até essa, é interminável e prolonga o labirinto propiciado pelas palavras, até ao irresolúvel caminho da incompreensão. 
O interesse da obra, mais do que todo o alicerce moral e intrínseco da personagem a despeito do caso, eleva-se para reconstruir todo o esqueleto de uma justiça, erguida pela injustiça. O caso, qualquer caso, pode ser exposto neste mesmo modelo.
Tudo se resume há máquina judicial e há súcia que a compõe. Nada mais importa senão eles. Mas eles também somos nós. Afinal, quem é a justiça? A "jaula de ferro" weberiana faz agora muito mais sentido.


           " Os escritos são imutáveis e as interpretações são muitas vezes apenas a expressão do desespero que os comentadores sentem perante eles."

           " A compreensão de uma coisa e a má interpretação da mesma coisa não se excluem completamente. " Franz Kafka
                                              


Martim Infante

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Eugénia Grandet

Honoré de Balzac (1799-1850) Tours - Paris. Ecritor romancista

3€ Alfarrabista  

 
Balzac apresenta-nos a família Grandet, assombrada pelas típicas obsessões humanas: amor e dinheiro.  Patriarca da família, o senhor Grandet, rico vinhateiro, sofre de uma avareza dantesca; a sua família vive numa pobreza lastimável e sob um regime orwelliano para que não se gaste um tusto. Eugénia, a filha única,  devido à vasta fortuna do progenitor, vê a sua mão disputada pelas famílias mais ricas da cidade provinciana de Saumur.

O escritor realista, pode ser enfadonho nas descrições do envolvente, mas compensa com proficiência, nas do psicológico. Criando várias lufadas de ar fresco ao longo da história, como o aparecimento do primo Grandet, jovem aristocrata parisiense desdenhoso de toda aquela população e modo de vida do interior. O primo será a grande paixão de Eugénia. Esta com uma visão quixotesca de quem descobre o primeiro amor, terá uma enorme desilusão.

O final perfeito tem tanto de trágico como de irónico, o senhor Grandet morre no escritório contemplar toda a sua fortuna. E Eugénia acaba por se casar por conveniência, com um modo de vida que deixaria o déspota, seu pai, orgulhoso. 

 Típico romance da época, que explora o pecado, a religião e o amor aos olhos de Balzac no pós-revolução francesa, que nos demonstra o porquê do seu nome ser incontornável. Sempre perspicaz e com observações gracejadoras. Ficamos então a conhecer os vícios de uma época algo distante mas, obviamente, muito pouco diferente dos dias de hoje. 


'' A lisonja nunca emana das grandes almas, é o apanágio dos pequenos espíritos, que se diminuem ainda mais para penetrarem melhor na esfera vital da pessoa à roda quem gravitam'' Balzac 

   Vilhena Lopes


quarta-feira, 13 de maio de 2015

Ivanhoe

Sir Walter Scott (1771-1832) Escócia. Dramaturgo, poeta e impulsionador do chamado "romance histórico".


Prenda
As peças, enquadradas, assumem importância arqui-excepcional. A dimensão emocional torna-se ainda mais crível, e a imanente possibilidade de se associar formas de ser e estar, a seres enciclopédicos, é fascinante.
Walter Scott é conciso e preciso na identificação histórica. O que poderia ser considerada uma obra juvenil, toma particular importância na pseudo-moderna sociedade. O consciente desdém pelo passado, alimenta-se erroneamente pela preocupação futura. Surgiu, nas primeiras páginas, a necessidade e o ensejo de me auxiliar de outros meios explicativos: evoluí. Evoluí no saber, ser independente da reflexão e do sentido, mas estimulo de vida mais consciente. 
Ponho em realce o título: Ivanhoe. Compreendo a escolha, direccionada na essência pela enlaço da personagem em toda e tudo da estória. Mas as suas intermitentes aparições, dão a sensação da personagem novelesca: detentora de um mérito sempre alheio e alheado. 
No meio de saxões e normandos, nazarenos e judeus, a história fluí com tamanho realismo, que as páginas viram tela. A intriga monárquica eleva-se, e é pelo mistério resolvida. O orgulho, a honra e a brutalidade da vida, milénio atrás, só se equipara com as antagónicas, mas não menos perniciosas, qualidades actuais. É talvez este, o ponto cíclico da nossa própria existência, que alcança especial relevo no meu cérebro. Se antes era pela honra que nos regíamos, é hoje na desonra que os nossos dias se sobrepõem. 
A leviandade do género humano, sempre presa em questões tão impudicas, esquece sempre o que é ser grande. O autor deste trecho só o pode ser; os restantes, são seus súbditos.



"Tanto como a neve de Dezembro espera pelo sol de verão."  Sir Walter Scott



Martim Infante