Viktor Nekrassov (1911-1987) Actual Ucrânia, França. Escritor e jornalista.
Prenda
Há livros que nada nos dizem. Verdade que o dito é mais geralmente proferido pela boca e não pelo papel. Verdade também, esta porventura mais discutível, que o primeiro tem muito menos força. Enfim.
Kira Giorgievna é uma mulher de três amores, se há espaço para tal existência (ponho de parte o meu cepticismo), e todo o texto se enlaça de volta deles. O primeiro amor, o juvenil, para alguns o mais inocente e para mim o mais sincero, imiscuí-se na vida de Kira depois de uma vida. Casada entrementes com um homem mais velho, uma possível junção bajular, a mulher encontra-se naquele estado de sensabor a que todo o jovem teme chegar. O terceiro amor, a paixão por um rapaz na flor da idade e na podridão do espírito, é utilizado como modelo para a feitura de uma escultura: Kira é uma escultora.
Quando o terceiro amor está a desabrochar, surge o primeiro, regressado da penumbra, o que arrasta o segundo para a solidão, o esquecimento.
Mas tudo se desenrola em nada. O amor tem de ser muito mais do que umas linhas, uns meios-termos quase profundos, Acredito na profundidade da frase, qualquer frase: a profundidade é nossa e não da palavra escrita.
Espero sempre do autor russo (ignoro fonteiras promíscuas), qualquer coisa de fascinante. Mas este texto é pífio, fraco, não puxou por mim. Quis lê-lo apenas para dele poder fugir. Foi só mais um, no meio de outros tantos. Ainda assim, todo o livro merece ser lido. Cada livro é muito mais que um livro, talvez porque não o seja, senão quando é lido.
Martim Infante

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